quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Como a análise muda com o tempo. E, claro, com a orientação ideológica

Antes de bradarmos aos quatro ventos que o governo quer impor um plano ditatorial e outras abobrinhas, vamos desligar a TV e ler o texto de Sírio Possenti, publicado originalmente no Terra Magazine em 13 de janeiro de 2010.

(Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia)


Leituras


Sírio Possenti
De Campinas (SP)


Andei lendo e ouvindo coisas sobre o tal decreto do governo que promoveria uma revisão da lei da anistia e atacaria a democracia em diversas outras frentes (liberdade de imprensa, direito à justiça etc.). Não sou jurista, nem historiador, nem militante ativo da causa, nem fui preso durante a ditadura. Então estava um pouco por fora. Por mais que desconfie de nossa mídia "profundamente democrática" - ela apoiou a ditadura enquanto deu, às vezes emprestando caminhões para fazer o trabalho dos camburões -, como só lia textos desancando o programa, estava achando que desta vez Lula e Vanucchi, principalmente, tinham botado os pés pelas mãos. Ouvia o Boris, lia a Dora Kramer mas, no máximo, ficava desconfiado - afinal, não à toa ambos são o que são.

Juro que não me ocorreu o óbvio, ou não me ocorreu nenhuma de duas seguintes obviedades: ir ao site da Secretaria dos Direitos Humanos (o documento deveria estar lá - só fui ler depois dos eventos que narrarei abaixo); b) se nenhum jornalão publicou o decreto, talvez fosse para evitar que os leitores tivessem acesso a ele, o que desmentiria facilmente as análises parciais.

Até que no sábado, dia 9 de janeiro, lendo página inteira do Estadão sobre os vícios do Programa (o jornal apoiou o golpe de 64, mesmo depois de seus donos terem penado com a ditadura de Getúlio; há coisas que nem os Mesquita aprendem ou não é um problema de aprendizado!), deparei com um box modesto, que dava voz a Paulo Sérgio Pinheiro, militante da causa dos direitos humanos mundialmente reconhecido e que foi titular da Secretaria dos Direitos Humanos durante o governo FHC (sim, FHC). O que dizia Pinheiro? Duas coisas: defendia o programa, como era de esperar de um militante da causa; mas, principalmente, que ele não tem novidade, que tudo o que está nele, a rigor, vem do governo e dos programas anteriores.

Aí tem coisa, eu pensei. Se o Programa vem de um governo anterior (depois soube que é o terceiro) e se está sendo tão criticado agora, então tem dente de coelho. A mídia - nem todos os jornalistas, mas a grande maioria dos que cobriram o tema ou opinaram sobre ele - transferiu para o programa inteiro as características criticáveis, segundo um certo viés, ainda mais discutível do que o Programa, de algumas passagens.

No domingo à noite, assisti ao PAINEL, programa coordenado por Wiliam Waak, num canal de TV. Lá estava o ex-ministro da Justiça de FHC (sim, de FHC) José Gregori, e foi uma bênção poder ouvir um homem decente, cujas intervenções podem ser assim resumidas: trata-se de um programa geral, que prevê a criação de uma comissão cuja função é preparar propostas a serem examinadas pelo Congresso sobre cada um dos itens do Decreto (e o Boris Casoy dizendo que o governo quer, sozinho, sem ouvir ninguém, implantar um projeto ditatorial - disse isso no jornal da Band de segunda-feira. É mentira, Boris! Uma vergonha!).

Para o leitor ter uma idéia de quão mentirosa é a posição de Boris Casoy - e de outros, às vezes menos raivosos -, basta ver a seguinte passagem do texto, exatamente no que se refere ao que foi tratado como revisão da lei da anistia (contesto a afirmação de Boris de que o governo quer fazer sozinho):

a) Designar Grupo de Trabalho composto por representantes da Casa Civil, do Ministério da Justiça, do Ministério da Defesa e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, para elaborar, até abril de 2010, Projeto de Lei que institua COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE, composta de forma plural e suprapartidária, com mandato e prazo definidos, para examinar as violações de Direitos Humanos praticadas no contexto da repressão política no período mencionado, observado o seguinte:

Se o Decreto diz que se criará um Grupo de Trabalho que preparará um Projeto de Lei para criar uma Comissão da Verdade, é óbvio que, qualquer que seja a decisão dos legisladores - e sobre ela se pode ter a opinião que se quiser, como é óbvio - não há como dizer, sendo minimamente honesto, que o governo quer fazer sozinho.

Você acha que o Boris é burro, que não sabe ler? Eu não acho. Acho que ele é um problema de outro tipo (de certa forma, revelado em sua fala sobre os garis).

Por falar em gente que não é burra, a atuação de William Waak no PAINEL, que ele sempre entorta, foi uma vergonha! Ainda bem que lá estavam Sepúlveda Pertence, que não só é do ramo, como trabalhou com Teotônio Vilela exatamente nas negociações do projeto de anistia, em 1979, e o ex-ministro José Gregori, de cuja atuação já falei.

*** Os leitores de Borges conhecem seu "Pierre Menard, autor de Quxote", conto célebre por muitas razões, mas especialmente porque propõe de forma genial o problema do sentido dos textos. Uma das passagens é a seguinte:
"Constitui uma revelação cotejar o Dom Quixote de Menard com o de Cervantes. Este, por exemplo, escreveu ("Dom Quixote", primeira parte, nono capítulo):

...a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito de ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro.

Redigida no século dezessete, redigida pelo "engenho leigo" de Cervantes, esta enumeração é um mero elogio retórico da história. Menard, em compensação, escreveu:

...a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito de ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro. A história, mãe da verdade: a ideia é espantosa. Menard, contemporâneo de William James, não define a história como indagação da realidade, mas como sua origem. A verdade histórica, para ele, não é o que sucedeu; é o que pensamos que sucedeu. As cláusulas finais - exemplo e aviso do presente, advertência do futuro " são descaradamente pragmáticas".

O que isso significa? Que um mesmo texto pode ter mais de um sentido. Para o narrador de Borges, os sentidos mudam com o passar do tempo. Mas, no caso do decreto de que estou falando, o sentido muda conforme a posição ideológica do leitor (à exceção de gente para quem a decência está acima do interesse político, como é o caso de Gregori).

Para mostrar isso mais claramente, concluo com a citação de trecho da coluna de Fernando Rodrigues na Folha de 11/01/2010 (aliás, no dia 12 ele publicou longa comparação do Programa atual com os anteriores, e as conclusões são óbvias: não há nada de marcantemente novo).

-Como a idade e a honestidade intelectual me obrigam (sic!) a lembrar o que já vi, eis a seguir dois trechos de outro PNDH mais antigo (cito trechos do que ele citou - S.P.):

1) Apoiar o controle democrático das concessões de rádio e TV, regulamentar o uso dos meios de comunicação social e coibir práticas contrárias aos direitos humanos;

2) Adotar medidas destinadas a coibir práticas de violência contra movimentos sociais que lutam pelo acesso à terra.
Essas propostas não saíram de uma mente chavista ou subperonista. São do PNDH de 13 de maio de 2002, assinado por Fernando H. Cardoso. (...). Mas os tempos mudam. Mudam então as análises (grifo meu)".

Ele citou trechos sobre esses dois temas porque são dois dos condenados por estarem no decreto assinado por Lula. Eles imporiam a censura à imprensa e não defenderiam o direito de propriedade, especialmente no campo (ah, e defenderia o MST).

Frequentemente, discordo das avaliações de Fernando Rodrigues. Mas reconheço que ter mostrado esses FATOS em sua coluna é outra mostra de decência. No meio de tanta bandalheira, ele e Gregori foram um consolo.

Fora Boris Casoy!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Um ponto de vista

Passando pra recomendar um link pra vocês, aproveitando aquele meu post sobre o FHC.
É um texto do blog do jornalista Leandro Fortes (Brasília, eu vi): Adeus, FHC.

Vale a pena!

Confere um trecho:
"Agora, às portas do esquecimento, escondido no quarto dos fundos pelos tucanos, como um parente esclerosado de quem a família passou do orgulho à vergonha, FHC decidiu recorrer à maconha".

Leia!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nostalgia no #musicfriday

Mundo Livre S/A pra vocês.

Porque eu também estou nostálgica...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ironia...

Parece que Fernando Henrique Cardoso está se sentindo à vontade, mesmo. Depois que largou a presidência e que a mulher morreu, FH relaxou e está fazendo/dizendo o que quer. Primeiro foi a defesa que fez pela descriminalização das drogas; agora vai assumir o filho de 18 anos que teve fora do casamento com uma jornalista da Globo - e que todo mundo sabia mas, misteriosamente, ninguém nunca noticiou.

O que eu acho mais engraçado disso tudo é um país conservador como o Brasil ter tido um presidente ateu, a favor da legalização da maconha e que, além de ter um filho fora do casamento, já não vivia com a mulher há algum tempo. Tudo o que os marqueteiros dos partidos tentam ao máximo esconder (e conseguiram, no caso de FHC).

Porque no Brasil ser ateu é pior do que ser gay (é verdade! há pesquisas) e político que quer ganhar a eleição tem que posar de pai de família, mesmo que a sua já não exista há muito tempo. Quanto à maconha, não vou nem entrar em detalhes: estamos no país em que tudo bem encher a cara todo fim de semana, mas maconha é coisa do diabo!

Vou deixar claro, para o caso de algum leitor mais desatento não perceber a ironia: claro que pouco me importa se o FH pulou a cerca ou não, e nunca ninguém vai me ouvir falar de "moral e bons costumes"... A questão aqui é que há dois pesos e duas medidas. Ou alguém se esqueceu do estardalhaço que a mídia fez no caso dos filhos (fora do casamento) do Lula e do Renan Calheiros?

Falando sério: fizeram um esforço danado pra esse cara ser presidente, não?

---

Gente, eu acho o Paulo Henrique Amorim um tanto caricato (se bem que seu continuasse a desenvolver essa história daqui a pouco estaria falando no PiG - Partido da Imprensa Golpista, hehe) mas vou colocar um link do blog dele que mostra a capa da Revista Caros Amigos sobre o filho do FH - revista de 10 anos atrás! Lembro de ter lido essa revista, e fuçando na internet descobri que o PHA disponibilizou a capa em seu blog. Vejam aqui.

OBS: Quando eu tiver mais de 70 vou fazer como o FH, e falar tudo o que eu quiser. me aguentem! hahaha

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Se falta inspiração...

A folha em branco na mesa virou o campo em branco do blog.
Os tempos são outros. Mas a sensação é a mesma...








.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O Dia da Consciência Negra

Pra começar, claro, tenho que pedir desculpas pela minha ausência do blog. Logicamente vou falar que me falta tempo. E é verdade, leitor: dei um passo maior que a perna, peguei muitas aulas na graduação, além do curso de inglês, academia e casa... não sobra tempo pra quase nada, e tenho circulado meio zumbi por aí. Mas passa, e em breve voltarei a escrever mais.

Bom, mas como eu já passei por aqui mesmo, vou registrar a minha opinião a respeito de um assunto que andou circulando aqui em Goiânia – o feriado do Dia da Consciência Negra. Não sei se os leitores de outros lugares ouviram a mesma coisa, ou como está a discussão em outros estados, mas aqui deu pano pra manga.

O fato é que (como esperado) o pessoal do comércio gritou assim que foi decretado feriado municipal no dia 20 de novembro. O Ministério Público então entrou com uma ação de inconstitucionalidade, pedra que meu amigo Leonardo Rezio já tinha cantado – segundo ele, bacharel em Direito, o município não pode decretar mais de dois feriados, e Goiânia já tem os dois: o aniversário da cidade e o dia da padroeira.

Bom, já que tá na lei, o feriado não passou, e todos trabalharemos normalmente na próxima sexta-feira. Até aí, tudo bem.

O problema foram as conversas que ouvi nesses dias. Cada argumento de fazer corar um general nazista... O pior era o “Ah, então deveria haver o dia do branco”. ... Gente, pra começar, não é comemorado o “dia do negro” no dia 20 de novembro. É o Dia da Consciência Negra, em que se lembra de Zumbi de Palmares – um mártir e um dos primeiros líderes dos negros brasileiros contra a opressão do europeu. Pois é: o cristianismo tem um mártir, comemoramos o dia dele, qual o problema de lembrar do mártir dos negros?

Outra coisa: em algum momento da História os brancos foram oprimidos por serem brancos? Pois os negros foram oprimidos por serem negros por séculos. E as marcas dessa opressão são vistas até hoje.

Tem aqueles também que falam que as pessoas vão é fazer churrasco no feriado. Eu pergunto: qual o problema? E qual a diferença pro feriado de 12 de outubro, dia da padroeira do Brasil? Por acaso ninguém no país fez churrasco? Foi todo mundo pra igreja? Pois é.

Eu acho uma pena. Ia ser bonito: o movimento negro ia fazer sua festa, a imprensa ia fazer reportagens especiais sobre o negro no Brasil, o pessoal ia fazer churrasco e eu ia dormir até meio-dia. Mas fazer o quê, não é?

Tudo bem ser contra, minha gente. Mas argumentem com bom senso. Não fiquem repetindo bobagem por aí!

Abraços a todos!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A mudança já começou

Agora que os brasileiros podem comprar o Kindle - leitor de livros eletrônicos da Amazon, a maior livraria do mundo – e que o Google anunciou sua entrada no mundo dos livros digitais, a discussão sobre a morte dos livros de papel foi retomada. Estaríamos vivendo os últimos momentos do livro como o conhecemos hoje? É o adeus às estantes abarrotadas, ao cheiro de papel novo, aos livros surrados dos quais não temos coragem de nos desfazer?


Paulo Coelho, o brasileiro que mais vendeu livros em todo o mundo, entrou na discussão. “Os copistas dos mosteiros não gostaram quando Gutenberg veio com a imprensa. Acharam que os livros impressos não reproduziriam a beleza das iluminuras feitas à mão. Depois todo mundo se acostumou. É o que acontece hoje com o livro impresso. O caminho digital é sem volta. A mudança já aconteceu. Quem não adotar a nova tecnologia vai ficar tão antigo quanto os monges medievais”, declarou em entrevista à Revista Época.


A professora Suely Aquino, do curso de biblioteconomia da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da UFG, faz uma analogia parecida. “Imagina se os homens da caverna dissessem: ‘não, não queremos abrir mão das nossas pinturas, vamos continuar nos comunicando assim’. Não teríamos evoluído!”, compara a professora.


Engraçado notar essa resistência que as pessoas tem pelo novo. (E o que mais me impressiona: vejo resistência da parte de pessoas muito jovens!) Mudar velhos hábitos é difícil para a maioria. E como crescemos com a experiência sensorial do livro – essa do cheiro do papel novo, do livro surrado – parece difícil desapegar desse objeto que nos acompanhou até hoje.


Eu proponho que olhemos para as possibilidades. Pensar em um livro e poder tê-lo disponível em 60 segundos, por meio do sistema de compras virtual da loja? Carregar, em um só aparelho, cerca de 1.500 arquivos? Guardar na bolsa, levar pra qualquer canto? É o sonho de qualquer consumidor voraz de livros.


Bom, como disse o mago, a mudança já aconteceu. Não que você a partir de hoje nunca mais vá comprar um livro de papel, mesmo porque o tal aparelho está com um preço bem salgado – cerca de 1000 reais, já somando taxas e tarifas de importação. Mas já existem notícias de leitores nacionais, que provavelmente popularizarão o hábito de se ler um livro digital. E daqui a alguns anos, você estará nostalgicamente contando a seus netos que, no seu tempo, esperava com ansiedade que o livro chegasse pelo correio, para então abri-lo e sentir aquele cheirinho de papel novo...