Ok. De volta à blogosfera!
Percebi que precisava, sim, de um espaço maior pra publicar algumas coisas que eu estava pensando. Por exemplo, algumas reportagens que faço pro curso de jornalismo e que acabam se perdendo por aí, sem publicação.
O primeiro post desse blog é uma dessas reportagens. Em "A profecia de McLuhan", falo um pouco sobre o futuro do livro de papel e novas formas de circulação de literatura e informação. Espero que gostem!
A profecia de McLuhan
A internet pode até matar a leitura no papel, mas ajuda a informação e a literatura circularem como nunca. Entenda como a rede está mudando a forma de se publicar um livro.
Por Agnes Arato
"Uma rede mundial de ordenadores tornará acessível, em alguns minutos, todo o tipo de informação aos estudantes do mundo inteiro". A frase é óbvia em 2009, mas no fim dos anos 60, quando Mashall MacLuhan criou o conceito de aldeia global, parecia um pouco com ficção científica. Hoje é inegável a revolução que a internet causou em nossas vidas. Em um curtíssimo espaço de tempo – cerca de 10 anos, já que o meio começou a se popularizar no Brasil no final da década de 90 – o mundo deixou de ter fronteiras, e a vida se acelerou. Podemos fazer de tudo pela rede: assistir um filme, baixar uma música, conversar com amigos que estão distantes, conhecer pessoas de outras cidades e países, tirar dúvidas, marcar uma viagem, trabalhar, fazer uma transferência bancária ou a compra do supermercado.
O impacto foi tão grande que alguns segmentos ainda estão desnorteados, se perguntando pra onde devem ir – vide o caso das gravadoras, dando murros em ponta de faca contra os downloads ilegais e compartilhamento de música na rede. A televisão não se ressentiu tanto da novidade, e parece estar encontrando formas de usar o meio como complemento à sua programação. O rádio ganhou novo fôlego ao somar suas características de instantaneidade e segmentação com a interatividade da rede. Mas e o livro? Sobreviverá à era da internet?
Segundo a professora Suely de Aquino Gomes, coordenadora do curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de Goiás, o livro, como qualquer outro meio, deve ser superado à medida que a tecnologia avança. “Qual o objetivo do livro? Divulgação de idéias, socialização, reconhecimento de propriedade intelectual, prestígio... isso num meio eletrônico acaba? Não acaba: o livro é só um meio”, diz a professora. Além disso, para a biblioteconomista, a internet devolve a ferramenta de trabalho para o autor. “Você não precisa mais de um editor pra imprimir e distribuir a sua obra. Você mesmo publica, divulga, chega até seus leitores sem intermediários”, diz ela. Por este prisma, a internet deixa de ser o monstro exterminador do hábito da leitura para se tornar um mundo de possibilidades.
Independência
Publicar um livro, hoje em dia, é muito diferente de alguns anos atrás. Uma rápida busca na rede mundial nos apresenta endereços que comercializam e-books no esquema chamado print-on-demand – literalmente, impressão sob demanda. Nesse serviço, o livro é disponibilizado no site sem custo algum para o autor, que recebe uma porcentagem da venda de cada exemplar (Confira o americano Lulu - http://www.lulu.com/).
Por esse sistema, o livro só é impresso quando um pedido é efetuado, o que elimina encalhes e altos custos de produção. Assim, se antes um pequeno autor acabava pagando para lançar seu livro, hoje ele pode até lucrar com isso – desde que, claro, saiba utilizar a rede para fazer sua divulgação. Acabaram-se as visitas à editoras, com o livro embaixo do braço, esperando que alguém aprove o trabalho e resolva bancar sua publicação. Essa forma de disponibilizar um livro utilizando a internet e sem intermediação de uma editora já tem até um nome na rede: é o Publishing 2.0.
Faça você mesmo
Em um esquema ainda mais independente, o próprio autor disponibiliza seu livro em formato PDF ou utiliza um blog para publicar textos e poemas. É possível encontrar autores que nunca publicaram em papel, como o poeta goiano Wilton Cardoso (http://minutosdefeiticaria.wordpress.com). “Eu comecei já publicando na internet. A partir do momento que o livro está na rede ele já está, virtualmente, distribuído para todo mundo. No meu caso, que não cobro nada pelos livros e nem limito a sua reprodução, é só disponibilizá-los num blog que a coisa flui”.
Wilton compara a utilização de blogs pelos autores de hoje com a geração marginal e seus fanzines, livros mimeografados ou foto copiados e sua propaganda boca a boca. “Só que enquanto os marginais saiam vendendo ou dando seus livros na rua para algumas centenas de pessoas, na internet os textos estão disponíveis, potencialmente, para milhões. E a divulgação agora é por email, bate-papos e sites de relacionamento, ou seja, pelo 'boca a boca' digital”, conclui.
Democratizando a informação
Outro exemplo recente de utilização da web para publicação de livro é o do paulista Juliano Spyer (http://www.naozero.com.br/), organizador do e-book Para entender a internet, disponível integralmente para download na rede. O livro, organizado, editado e diagramado em 45 dias, contou com a colaboração de 38 pessoas, entre articulistas e diagramadores, e traz 37 artigos sobre diversos temas ligados à rede – de redes sociais virtuais à pirataria e exclusão digital. Os colaboradores fizeram o trabalho em conjunto, mas sem se encontrarem pessoalmente, utilizando todo o tempo as ferramentas da própria web, como o MSN e o email.
Juliano, que já publicou em papel (o livro Conectado, Jorge Zahar Editor), compara as duas experiências: “Já faz quase dois anos do lançamento do Conectado e a tiragem de 3 mil exemplares, que é alta para esse tipo de livro no Brasil, ainda não se esgotou. No caso do Para entender a Internet, estimo que 24 horas depois do lançamento mais de 3 mil pessoas já tivessem cópias do livro”. Para o autor, o modelo pode ser utilizado por grupos que compartilhem os mesmos interesses e reconhecem a oportunidade aberta pela web para a troca de conhecimento. “Estudantes de pós-graduação em astronomia, por exemplo, podem usar a mesma fórmula para produzir um livro introdutório sobre o assunto, acessível a todos”, especula.
Modelo importado
Entre os exemplos apresentados de utilização da web para publicação de livros e textos, há uma característica em comum: a importação do modelo do impresso. A maioria dos autores não utiliza recursos como áudio e vídeo, e disponibiliza seus textos em formato PDF, para serem baixados e impressos. Segundo Suely de Aquino, isso acontece porque a linguagem específica do meio ainda não foi encontrada. “Não descobrimos ainda todas as possibilidades, nem qual é a linguagem pra esse novo ambiente. Então, a nossa tendência é copiar o que a gente conhece. Eu comparo quando do surgimento a televisão. No início, a estrutura dos programas era uma réplica da estrutura dos programas de rádio. Foi depois que a televisão adquiriu uma linguagem própria. E as publicações na internet estão na mesma fase”, afirma.
Buscando essa nova linguagem estão autores como Wilton Cardoso, que considera sua poesia visual, e utiliza editores de imagens, de texto e de slides, com imagens, cores e fontes variadas. Além disso, o escritor planeja fazer gravações caseiras de seus poemas para disponibilizá-las no blog. “Mas a grande possibilidade da internet é fazer uma poesia total, que mistura a escrita, o som e a imagem em movimento: esta eu nunca fiz. Ela exigiria técnica de programação e uma sensibilidade musical e visual que não possuo. No meu caso, tal poesia teria que ser em colaboração. O mais próximo que cheguei disso foi o 'di(per)versões eletrônicas', uma parceria com Patrícia Martins (artista visual) e Frederico Assunção (artista visual, músico e poeta), uma obra de poesia visual que gostei muito de fazer”, afirma Wilton.
Futuro
Talvez daqui a algumas gerações, o livro de papel que utilizamos hoje efetivamente desapareça, ou seja cultuado por um nicho, assim como aconteceu com os discos de vinil. É o que imagina a professora Suely, que desabafa: “A gente tem que acabar com essa angústia de que o livro vai desaparecer. O anseio da humanidade é divulgar a sua cultura, sua produção cultural, artística, científica. E os meios evoluem nesse anseio de divulgar, de fazer circular idéias, de registrar essas idéias. O papel é um meio, não é a finalidade. Se temos um meio melhor, com mais recursos, e mais democrático, por que não usá-lo?”, questiona.
Wilton Cardoso também acredita que a internet vai acabar matando o livro de papel. “A rede é uma espécie de profecia do McLuhan. Ele falava de TV, rádio e telefone como mídias elétricas que absorveriam as mídias antigas, entre elas a escrita. Mas no fundo estava intuindo a internet, e é ela que vai absorver o mundo do texto, mais cedo ou mais tarde”, reflete o escritor. Afinal, os discos de vinil desapareceram, mas a música circula como nunca.
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